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Maior trilha urbana do país vai atravessar Rio pelas montanhas

As montanhas cariocas que se veem em todo cartão postal parecem pedras inatingíveis ou florestas fechadas, mas são uma verdadeira via expressa para trilheiros, um só bloco de mata de um extremo a outro da cidade.
Esse corredor será revelado hoje (11) com a inauguração da maior trilha urbana do país, a Transcarioca. Ela atravessa o Rio de Janeiro de Barra de Guaratiba, na zona oeste, ao Morro da Urca, aos pés do Pão de Açúcar, na zona sul –são 180 quilômetros.

Seus 25 trechos passam por sete unidades de conservação. No trajeto, vistas de praias desertas e áreas urbanas, bichos, cachoeiras, ruínas.

A reportagem percorreu um dos trechos em busca do que sobrou de uma fazenda colonial. Achou pistas, como uma calçada de “pé-de-moleque” e uma ponte de pedra, mas não a ruína principal.

Passou por duas quedas-d’água, cobras e lagartos inofensivos e um mirante de onde se vê a lagoa Rodrigo de Freitas e o Jockey Clube no primeiro plano e, no fundo, as praias de Ipanema e Leblon. Pegadas pintadas em árvores e pedras indicam o caminho.

A caminhada foi quase toda morro acima, com partes leves, outras cansativas. Houve exemplos do que gestores da trilha chamam de “escalaminhada”, onde é bom usar as mãos para vencer alguns metros. É possível ver o grau de dificuldade, a exposição a risco e a insolação de cada trecho no site da trilha (trans carioca.wikiparques.org).

Ao contrário de outras caminhadas de longo percurso, não é possível percorrer a Transcarioca toda de uma só vez porque a maior parte das unidades de conservação que ela atravessa proíbem pernoite. Não fosse por isso, os gestores acreditam que a viagem duraria por volta de duas semanas. A trilha tem saídas para o asfalto a intervalos regulares, e a maioria dos trechos leva poucas horas.

Quem teve a ideia de criá-la foi um diplomata, Pedro da Cunha e Menezes. Na juventude, foi comissário da Varig. Do alto via que o Maciço da Pedra Branca, na zona oeste, e da Tijuca, a leste, eram uma coisa só. “Pensava: tem que ter um jeito de atravessar.”

No livro “Transcarioca: Todos os Passos de Um Sonho” (2000) ele detalha a proposta no contexto de outras trilhas de longo percurso, como a Appalachian Trail (EUA).

Além de ser mais uma opção de programa para cariocas e turistas, a ideia é que a trilha gere emprego e renda para quem mora perto dela e traga melhorias ambientais.

Se der certo, espera-se que sirva de modelo de conservação da mata atlântica. “Fazer a ligação entre áreas protegidas estimula trocas entre espécies e beneficia a biodiversidade”, afirma o biólogo Marcelo Andrade.

Ele é membro do Mosaico Carioca, união de unidades de conservação municipal, estadual e federal na cidade do Rio responsável por gerir a trilha.

Mas entidades ambientais não ligadas ao governo e mais de mil voluntários foram decisivos para tirar a trilha do papel. Nos últimos anos, foram diversos mutirões de limpeza das trilhas e de aplicação da sinalização. Empresas e ONGs “adotaram” trechos e colaboraram para o processo.

Um grupo que já usa o corredor montanhoso são os traficantes. A mata é usada por criminosos como rotas invisíveis para a polícia. Também há assaltos em trilhas. Polícia Militar e Guarda Municipal atuam nas matas, mas nem sempre é o bastante.

Os gestores estão mapeando os trechos onde há mais ocorrências. Acreditam que a existência da trilha ajude a reduzir a criminalidade. “A experiência internacional mostra que, quanto mais ocupada uma mata, mais segura ela se torna”, diz Adriano Melo, coordenador de projetos da Conservação Internacional.

Um ponto negativo nesse quesito é que nem todos os trechos têm controle de quem entra e sai. Por isso gestores recomendam que se faça trilhas só de dia e em grupos de, no mínimo, três pessoas.

“A incidência de assalto é muito maior no asfalto do que na mata. Podemos cruzar os braços e não fazer nada no país, ou tentar garantir que tudo corra da melhor maneira possível. Acho a segunda opção melhor”, diz Menezes.

Editoria: Turismo Tags: , , ,

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