0

Vendas de imóveis novos no ABC caem ao menor patamar em 14 anos

Vendas de imóveis novos no ABC caem ao menor patamar em 14 anos

Santaguita: “Mesmo quem não é funcionário da Ford tira o pé, porque fica em dúvida quanto à manutenção de seu emprego”. Foto: Anderson Amaral/Especial para o DR

Em um cenário de desemprego persistente, atividade econômica fraca e baixa confiança entre consumidores, as vendas de imóveis novos no ABC voltaram a cair no primeiro semestre deste ano, após esboçar reação em 2018.

Pesquisa divulgada nesta terça-feira (10) pela Associação de Construtores, Imobiliárias e Administradoras de Imóveis do ABC (ACIGABC) revela que, nos primeiros seis meses deste ano, foram comercializadas 769 unidades na região, volume 47,8% inferior ao vendido no mesmo período do ano passado (1.462).

Trata-se do pior resultado para o primeiro semestre da história da pesquisa, iniciada em 2006 e que sofreu mudanças em 2017 para se adequar ao levantamento feito pelo Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP). Não há coleta de dados em Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, onde inexiste produção de imóveis verticais.

O desempenho do mercado imobiliário no ABC contrasta com o observado na Capital, onde já é possível vislumbrar a retomada nos negócios. Na mesma comparação, as vendas de imóveis novos na cidade de São Paulo cresceram 56,2%, para 18.745 unidades, segundo levantamento do Secovi-SP. Nos demais municípios da região metropolitana, a pesquisa aponta recuo de 8,9%, para 3.431 imóveis comercializados.

Ao citar os números, o presidente da ACIGABC, Marcus Santaguita, afirmou que a retomada ainda não chegou aos demais municípios da região metropolitana. O executivo ressaltou que a economia paulistana é mais diversificada, enquanto a do ABC continua ainda bastante dependente da indústria – especialmente a automotiva, atualmente às voltas com o encerramento das atividades da Ford em São Bernardo.

“O impacto (na economia da região) é violento quando uma indústria fecha as portas. Mesmo quem não é funcionário da Ford tira o pé, porque fica em dúvida quanto à manutenção de seu emprego”, afirmou Santaguita, durante a divulgação da pesquisa na sede da ACIGABC, em São Bernardo.

O executivo destacou que, na Capital, a prefeitura tem incentivado a produção de unidades sem garagem nos arredores das estações de metrô, o que também tem contribuído para a reação nas vendas. “São imóveis de 30 m² a 40 m² que, sem necessidade de construção do subsolo, têm tíquete médio menor e podem ser enquadrados no (programa federal) Minha Casa, Minha Vida”, afirmou.

Santaguita lembrou que, historicamente, as vendas melhoram no segundo semestre e que o mercado deve ser impulsionado pelo avanço das reformas prometidas pelo governo, as quais criarão ambiente mais favorável para os negócios. O presidente da ACIGABC também avaliou como positiva a criação, pela Caixa Econômica Federal, de linha de crédito com correção pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

“Houve recorde de simulações no site da Caixa e muita procura nas construtoras, mas ainda vai demorar alguns meses para que a nova linha comece a impactar nas vendas”, afirmou Santaguita, ao destacar que a nova modalidade deixará as parcelas do financiamento mais baratas, “desde que o IPCA não suba muito”. O executivo afirmou ainda que os bancos estão menos restritivos na concessão de crédito imobiliário.

 

Lançamento de imóveis cresce 98% com base de comparação fraca

 

Apesar de as vendas de imóveis novos na região estarem no patamar mais baixo da história, as construtoras começam a desengavetar novos projetos. Prova disso é que o número de lançamentos cresceu 98,1% no primeiro semestre, para 1.062 unidades, contra 536 no mesmo período de 2018, segundo pesquisa divulgada nesta terça-feira (10) pela Associação de Construtores, Imobiliárias e Administradoras de Imóveis do ABC (ACIGABC).

A alta expressiva é explicada pela fraca base de comparação. Afinal, o número de lançamentos do primeiro semestre do ano passado só é maior que as 479 unidades apuradas no mesmo período de 2004. Também é resultado da forte queda no estoque de imóveis em oferta na região, que encerrou o primeiro semestre em 1.829 unidades, mas esteve na casa de mil no início deste ano.

“A queda no estoque ocorrida nos últimos anos, associada ao ambiente de maior segurança jurídica e à inflação sob controle, levou as empresas a tirar alguns projetos da gaveta”, afirmou o presidente da ACIGABC, Marcus Santaguita, referindo-se à sanção no final do ano passado, pelo então presidente Michel Temer, da lei que regulamenta a desistência da compra do imóvel na planta, o chamado distrato imobiliário.

No corte por municípios, chamou a atenção o desempenho de Santo André, responsável pelo lançamento de 908 unidades no primeiro semestre, o que representa 85,5% do total. Ante o primeiro semestre de 2018, o número de lançamentos cresceu 234%. “Santo André é a cidade com o melhor ambiente de negócios da região, pois tem Plano Diretor e Lei de Uso, Ocupação e Parcelamento do Solo (Luops) mais equilibrados”, disse Santaguita.

No sentido contrário, Mauá, São Caetano e São Bernardo e fecharam o primeiro semestre sem lançamentos.

Em Mauá, segundo Santaguita, a aprovação da Termo de Compensação Urbanística (TCU) – que estabelece acréscimo de 10% sobre o custo total de construções acima de cinco unidades – inibiu a produção imobiliária. Na semana passada, a Câmara aprovou projeto da então prefeita Alaíde Damo (MDB) que reduziria a alíquota para 3,5%, mas não houve tempo para sancioná-lo – Atila Jacomussi (PSB) reassumiu o Paço nesta terça-feira.

No caso de São Caetano, o presidente da ACIGABC culpou Plano Diretor e Luops aprovados durante a administração de Paulo Pinheiro (MDB), mais restritivos. Por fim, em São Bernardo, Santaguita explicou que a gestão do prefeito Luiz Marinho (PT) restringiu o coeficiente de construção (índice que define a quantidade de área que pode ser erguida sobre cada terreno).

O executivo afirmou que, em julho, durante evento realizado na ACIGABC, o prefeito Orlando Morando (PSDB) teria prometido encaminhar à Câmara, até o final deste ano, projeto para a revisão do Plano Diretor e do coeficiente de construção, atualmente em 1,5 vez a área do terreno.

“Nos três casos (de Mauá, São Caetano e São Bernardo) dá para ver, nitidamente, a influência do poder público sobre o mercado. O de São Bernardo é pior, porque a cidade sempre foi protagonista no ABC”, comentou Santaguita. “O mercado não tem fronteiras. Se a construtora enfrenta dificuldades em um local, vai para outro”, prosseguiu o executivo, destacando que muitas empresas têm migrado para o Interior do Estado.

Editoria: Regional Tags: , , , , , , , , ,

Assine e receba as publicações

Compartilhe esta matéria

Matérias Relacionadas

Comente esta matéria

Enviar comentário

Atenção! O comentário aqui postado é de inteira responsabilidade do autor e não expressa a opinião do Diário Regional. Comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros poderão ser denunciados pelos usuários e serão removidos.

© 2019 Diadema Jornal. Todos os direitos reservados.
.